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ARTIGO - RELATO DE TRATAMENTO COM BANDAGEM ELÁSTICA FUNCIONAL ADESIVA

 

Publicado: 19/01/2011

 

LOREM DA SILVA PEREIRA

 

 REABILITAÇÃO DE PACIENTE COM EPICONDILITE LATERAL ATRAVÉS DO TRATAMENTO COM BANDAGEM ELÁSTICA FUNCIONAL 

                                                                     (Relato do caso)



Introdução:

A epicondilite lateral (EL) é, dentre as afecções do cotovelo, a mais comum, sendo geralmente desencadeada por trauma ou esforço repetitivo. Caracteriza-se por uma síndrome dolorosa localizada na região do epicôndilo lateral, origem do supinador do antebraço, extensor radial curto do carpo e do extensor comum dos dedos, além de debilidade músculo-esquelética, que limitam as atividades profissionais e cotidianas. Embora tenha sido descrita como doença ocupacional desde 1880, não se restringe a essa classe (1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,11,12,13,14,15,16,17,18,19,20,21). 


Quanto à etiologia, existem várias teorias para a afecção, incluindo: bursite, sinovite, inflamação ligamentar, periostite, compressão dos ramos pericapsulares do nervo radial, lesão do tendão extensor radial curto do carpo (ERCC) e, em menor grau, na face ântero-medial do extensor comum dos dedos (ECD). A análise histológica de áreas acometidas pela EL revelou que essas lesões seriam resultado da aplicação de tração contínua e repetida, levando à microlacerações da origem do ERCC, seguidas de fibrose, hipovascularização da aponeurose dos extensores, formação de tecido de granulação, edema e invasão celular da aponeurose, além de tecido aureolar frouxo no espaço subtendinoso (1,2,3,4,6,10,14). 


Ao exame físico, o paciente refere dor localizada à palpação sobre o epicôndilo lateral, que irradia ou não ao longo dos músculos extensores, podendo o ponto máximo de dor localizar-se na região anterior e distal ao epicôndilo lateral do úmero. A confirmação do diagnóstico de EL pode ser realizada através do teste de Cozen (extensão do punho contra a resistência e com o cotovelo em 90° de flexão e o antebraço em pronação), que é considerado positivo para EL caso reproduza a dor experimentada pelo paciente no epicôndilo lateral. Outro teste útil, que foi utilizado nesse estudo, é o teste da cadeira, no qual o paciente é instruído a erguer uma cadeira com uma mão com o antebraço em pronação e o punho em flexão palmar (1,3,4,13,19). 


Não é necessária a confirmação diagnóstica por imagem. No entanto, à ressonância nuclear magnética observa-se uma alteração de sinal na origem do tendão ERCC, e a ultra-sonografia pode revelar a presença de fluido hipoecogênico subjacente ao tendão extensor comum dos dedos, laceração e microrrupturas do tendão, e diminuição de ecogenicidade. Em 25% dos pacientes podem aparecer calcificações em tecidos adjacentes ao epicôndilo, principalmente se houver infiltrações prévias de esteróides no local (1,3). 


A maioria dos pacientes responde ao tratamento conservador (repouso, medicamento e fisioterapia). Naqueles em que os sintomas persistem, são realizadas infiltrações com corticóides ou toxina botulínica e, em alguns casos, cirurgia (1,2,3,5,6,8,9,10). 


Dentre as possibilidades de tratamento fisioterapêutico existe a Bandagem Elástica Funcional Adesiva, também conhecida como Bandagem Terapêutica, que segue o conceito de estimulação tegumentar. Consiste em realizar, através das forças mecânicas impostas pela elasticidade e força reativa da bandagem, um arco neural por meio dos mecanorreceptores, gerando uma alteração no comportamento das unidades motoras dos músculos, o que causa um aumento ou diminuição da excitação neuronal. Aplicada desde a década de 1970, pode ser utilizada com diferentes objetivos como: alívio da dor e da inflamação (como no caso desse trabalho), estabilização muscular, correção articular, prevenção de lesões, melhora dos estímulos somatosensorias e da circulação e redução do edema. Esse método foi utilizado devido à boa viabilidade, eficácia, baixo custo e índice de efeitos colaterais praticamente insignificantes (22).


O objetivo desse estudo foi verificar se seria possível a reabilitação de uma paciente com epicondilite lateral, aliviando a dor e a inflamação locais, através do tratamento com Bandagem Elástica Funcional Adesiva. Esse método foi utilizado devido à boa viabilidade, eficácia, baixo custo e índice de efeitos colaterais praticamente insignificantes.

Abstract

Introduction: Lateral epicondylitis is the most common disorder of the elbow, usually triggered by trauma or repetitive stress. It is characterized by a pain located in the lateral epicondyle, the origin of the forearm supinator, extensor carpi radialis brevis and extensor digitorum, and muscle weakness that limit the professional and daily activities. Among the possibilities of physical therapy for lateral epicondylitis exists Taping Therapy, which follows the concept of cutaneous stimulation. 

Objective: The aim of the present study was to determine whether it would be possible to rehabilitate a patient with lateral epicondylitis, relieving pain and inflammation sites, by treatment with Taping Therapy. Method: The study included one female patient, 53 years old, who was assessed on a subjective scale of pain before and after each session: at rest, palpation of the left lateral epicondyle, the Cozen´s test, the extension of left elbow, bending the left elbow and left elbow flexion with load (chair´s test). She was treated with Taping Therapy once a week for 4 sessions (having gone to the 5th and 6th sessions only to report the absence of symptoms). Every session was a technique used in "I", applied with the patient in flexion of the left wrist and left elbow extension, and none of the tension of the bandage has reached or exceeded 50% stretch. 

Results: After four sessions with the use of Taping Therapy physical therapy treatment for left lateral epicondylitis, the patient had no longer pain at rest, palpation, movement or Cozen and chair´s test. She said the symptoms did not return even after a week doing weight training. Conclusion: Therapy Taping was effective as physical therapy for lateral epicondylitis left the patient in question, providing such results in few sessions and with low financial cost.


Keywords: rehabilitation; lateral epicondylitis; TherapyTaping.


Método

Paciente do sexo feminino, 53 anos de idade, professora, destra, foi avaliada e tratada com Bandagem Elástica Funcional Adesiva uma vez por semana, por 4 sessões (tendo ido à 5ª e 6ª sessões somente para informar a ausência dos sintomas), no consultório de fisioterapia da autora, sito em Cantagalo-RJ. A paciente concordou com a divulgação das presentes informações e imagens e assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Esse estudo foi realizado conforme as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos (Resolução 196/1996 do Conselho Nacional de Saúde).


Durante a anamnese a paciente informou que há aproximadamente 4 meses apresenta dor na região lateral do cotovelo esquerdo à palpação, ao repouso e ao movimento. Quando inquirida a respeito, disse não se lembrar se a dor começou após algum esforço específico ou trauma. Também negou a realização de qualquer exame complementar, bem como tratamento fisioterapêutico ou medicamentoso desde o início dos sintomas. Após a anamnese, sob suspeita de apresentar epicondilite lateral esquerda, a paciente foi submetida aos testes de Cozen e da cadeira, os quais confirmaram a suspeita, já que a paciente apresentou dor durante os mesmos.


Para fins de acompanhamento da evolução do tratamento, foi confeccionada uma tabela na qual foram registrados os valores informados pela paciente (antes e após cada sessão), que foi orientada a relatá-los seguindo uma escala subjetiva de dor, variando de 0 (ausência de dor) a 10 (dor máxima que poderia sentir). Os critérios avaliados foram dor local: ao repouso, à palpação do epicôndilo lateral esquerdo, ao teste de Cozen, à extensão do cotovelo esquerdo, à flexão do cotovelo esquerdo e à flexão do cotovelo esquerdo com carga (teste da cadeira).


Como tratamento fisioterapêutico, foi realizada a Bandagem Elástica Funcional Adesiva, com aplicação da bandagem,(tecido constituído 100% de algodão e microfios de elastano; fina, porosa, com cola adesiva de acrílico, não contém medicamentos, expande-se somente no sentido longitudinal). Antes de cada aplicação da bandagem, a pele foi limpa com algodão embebido em álcool e seca espontaneamente; após a colocação de cada uma delas, foi realizada fricção sobre a bandagem a fim de gerar calor através do atrito, obtendo assim maior eficiência em sua aderência na pele. Foi utilizada em todas as sessões a técnica em “I” (como exposta na figura 1), aplicada com a paciente em flexão do punho e extensão do cotovelo esquerdos, e em nenhuma delas a tensão da bandagem alcançou ou excedeu 50% de estiramento. Na 1ª sessão, foi aplicada sem tensão. Na 2ª sessão, a dor não estava mais presente no epicôndilo lateral esquerdo, mas sim anterior e distal a ele, na região dos ventres musculares dos extensores do punho e dos dedos, e a bandagem foi aplicada com tensão leve, com ponto fixo no punho. Na 3ª e 4ª sessões, a bandagem foi aplicada com tensão um pouco superior à da 1ª sessão, também com ponto fixo no punho. Na 5ª e 6ª sessões não foi aplicada bandagem, pois a paciente chegou sem dor. A paciente era sempre orientada a tentar manter a bandagem pelo máximo de tempo; se possível, até a sessão seguinte. No entanto, a mesma sempre chegava à sessão dizendo que a bandagem começara a soltar na véspera, motivo pelo qual ela a retirava.


Nenhum tratamento complementar fisioterapêutico ou medicamentoso foi realizado durante a terapia relatada, sendo a sessão restrita à prática da Therapy Taping. Depois desse procedimento, a paciente era liberada da sessão e mantinha as atividades normais de seu cotidiano, exceto musculação. Após a 5ª sessão, quando chegou sem queixas e na qual não realizou mais nenhum tratamento, foi liberada para retornar à musculação. Na 6ª sessão, mesmo após uma semana realizando musculação, continuava sem apresentar dor e recebeu alta do tratamento.

Resultados

Após 4 sessões com a utilização da Bandagem Elástica Funcional Adesiva como tratamento fisioterapêutico para a epicondilite lateral esquerda da paciente em questão, a mesma já não apresentava dor ao repouso, à palpação, ao movimento ou aos testes de Cozen e da cadeira. Segundo ela, os sintomas não retornaram nem mesmo após uma semana realizando musculação.
Os resultados das avaliações da dor nos diferentes critérios utilizados, antes e após cada sessão de tratamento fisioterapêutico com Bandagem Elástica Funcional Adesiva, estão expostos na tabela 1.

Discussão

Para o tratamento da epicondilite lateral são propostos diversos métodos conservadores e cirúrgicos. Existem ainda autores que acreditam haver pouca evidência científica de que qualquer forma de tratamento não cirúrgico altere a história natural da doença, que teria resolução espontânea em cerca de 70% a 80% dos casos em um ano (1,2,3,5,6,8,9,10). 


Apesar das controvérsias, a maior parte dos estudos revela que a maioria dos pacientes responde ao tratamento conservador (repouso, medicamento e fisioterapia) e que infiltrações com corticóides ou toxina botulínica e, em alguns casos, cirurgia, são opções de tratamento somente quando os sintomas persistem apesar dos tratamentos anteriores (1,2,3,5,6,8,9,10). 


Além disso, como as infiltrações geram bons resultados iniciais, que, no entanto, não costumam manter-se a longo prazo, tendo maior probabilidade de recidiva, e as cirurgias abertas ou artroscópicas, além da possibilidade de lesões secundárias, solucionam apenas cerca de 60 a 65% dos casos (embora alguns estudos registrem resultados em 90 a 97% dos casos), o tratamento com fisioterapia persiste como primeira opção (1,2,3,5,6,8,9,10).


Os diversos métodos de tratamento fisioterapêutico comumente utilizados (como laser, eletroterapia, fonoforese, manipulações, reforço muscular e técnicas de alongamento), geralmente realizados 3 vezes por semana, quando eficazes, alcançam seus objetivos entre 6 semanas a 1 ano de tratamento (2,3,5,8,9).


Esse estudo, no entanto, revelou que, com o uso da Bandagem Elástica Funcional Adesiva somente uma vez por semana, ao longo de apenas 4 sessões, a paciente ficou livre dos sintomas, que permaneceram inexistentes mesmo após ela retornar à musculação. Isso revela que o método não só foi eficaz, como também promoveu tal resultado mais rápido e com menor custo que os demais, já que a freqüência das sessões de tratamento também foi menor.

Conclusão

A partir da análise do estudo de caso e de seus resultados, conclui-se que a Bandagem Elástica Funcional Adesiva foi efetiva como tratamento fisioterapêutico para a epicondilite lateral esquerda da paciente em questão, promovendo tais resultados rapidamente e com baixo custo.
Sugere-se a realização de estudos experimentais em um grupo maior de pacientes com epicondilite lateral, inclusive no membro dominante (o que não foi o caso), a fim de verificar se o tratamento fisioterapêutico com Bandagem Elástica Funcional Adesiva poderia apresentar resultados igualmente rápidos e efetivos.

 


Referências

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Fonte: Reabilitação de paciente com epicondilite lateral através do tratamento com Bandagem Elástica Funcional Adesiva: relato de caso Ter Man. 2010; 8(40)supl:S45-S48

 

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